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quarta-feira, 7 de junho de 2017

Como a Alemanha acabou com a sua 'Cracolândia'

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Nos anos 1980 e 1990, 1,5 mil pessoas viviam perto da estação ferroviária de Frankfurt, no maior ponto de uso de drogas a céu aberto do país. Mas uma guinada nas políticas para lidar com dependentes mudou a situação.

Deutsche Welle
Por Deutsche Welle

No final da década de 1980, o maior ponto de uso de drogas a céu aberto da Alemanha ficava em Frankfurt: na região do parque de Taunusanlage, próximo à estação ferroviária central, viviam cerca de 1,5 mil dependentes de heroína, numa espécie de "Cracolândia" alemã.
Além de ser um problema social, Taunusanlage era uma questão de saúde pública: cerca de 150 dependentes morriam de overdose a cada ano. Atualmente, mais de 25 anos depois, a "Cracolândia" alemã faz parte do passado da cidade.
A extinção do ponto de uso de drogas foi alcançada graças a uma iniciativa que ficou conhecida como o "Caminho de Frankfurt" e serviu de exemplo para diversas cidades do país que enfrentavam problema semelhante.
"A mudança na política de drogas não ocorreu pela convicção nas opções que se tornavam populares, como terapias de substituição, mas pela necessidade de que algo novo precisava ser feito, já que o tradicional não estava funcionando", avalia Dirk Schäffer, assessor para drogas e sistema penal da organização de combate à aids Deutsche Aids-Hilfe (DAH).
No início da década de 1990, conta Schäffer, a situação era dramática em várias cidades da Alemanha, com alta taxa de mortalidade decorrente do uso de drogas e grandes concentrações de usuários em locais públicos. A isso, somava-se o advento da aids e o medo de que o vírus se espalhasse para além dos grupos de risco.
Diante da situação em Taunusanlage, Frankfurt iniciou em 1988 uma série de encontros mensais em busca de uma solução para o problema da heroína na cidade. Deles participavam não somente políticos e policiais, mas também representantes de organizações de ajuda a dependentes químicos e comerciantes locais.
A principal revolução da política adotada foi a percepção do vício como uma doença, possibilitando a descriminalização do dependente. Essa mudança gerou impactos em ações policiais, direcionadas a combater o tráfico e não mais o usuário, e em medidas de saúde pública, concentradas em oferecer alternativas – não somente de moradia, mas também locais de consumo e possibilidades de tratamento – para tirar das ruas dependentes químicos.

Alternativas para dependentes
Entre as estratégias adotadas em Frankfurt estavam o oferecimento amplo de terapias de substituição e a criação de salas supervisionadas para o consumo de drogas.
As terapias de substituição para usuários de heroína começaram a ser aplicadas na Alemanha no final dos anos 1980. Nela, a heroína é substituída por opioides, como a metadona, com quantidade estipulada e o uso monitorado por um médico. A abstinência não é necessariamente uma das metas visadas nesse tipo de tratamento, mas sim o controle do vício.
"Ao substituir heroína por opioides, o objetivo das terapias de substituição é melhorar as condições de saúde física e mental de dependentes e possibilitar sua reintegração social. Nesse sentido, essas terapias são as mais bem-sucedidas nos tratamentos de dependentes químicos", afirma Uwe Verthein, do Centro Interdisciplinar para Pesquisa sobre Dependência da Universidade de Hamburgo.
Apesar do sucesso, esse tratamento só é possível para dependentes de opiáceos, como a heroína. Ainda não há terapias semelhantes para outras drogas, como o crack. Primeiros experimentos para a substituição da cocaína estão sendo feitos na Holanda, mas Verthein destaca que essa pesquisa ainda está bem no início.
Atualmente, a terapia de substituição faz parte da política federal de drogas na Alemanha. O país oferece esse tratamento para cerca de 77 mil dependentes químicos.
Além desta terapia, o Caminho de Frankfurt abriu também as portas para as salas supervisionadas para o uso de drogas na Alemanha. Em 1994, a cidade, quase ao mesmo tempo que Hamburgo, abriu o primeiro estabelecimento deste tipo. No local, dependentes têm acesso a seringas e todo material esterilizado para o uso da substância e recebem acompanhamento médico em casos de overdose.
O espaço possibilita ainda que assistentes sociais façam contato com dependentes e possam apresentar a eles opções de tratamento para o vício. Além disso, as salas contribuíram para tirar das ruas a grande massa de usuários que se concentravam em parques e próximos a estações de trem e reduzir infecções causadas pela reutilização de seringas infectadas.
A iniciativa foi seguida por outras cidades, como Berlim. Mesmo sem uma base legal, essas salas eram toleradas pelas autoridades. Somente em 2000, o governo federal legalizou estes espaços. Atualmente, há 24 salas supervisionadas para o consumo de droga, distribuídas em 15 cidades da Alemanha. Em Frankfurt, há quatro, por onde passam anualmente cerca de 4,5 mil dependentes por ano. Em Berlim, são duas salas e uma estação móvel, que recebem anualmente aproximadamente 1,2 mil usuários.
Ações policiais em paralelo também foram importantes para a desocupação de Taunusanlage. Porém, elas ocorreram apenas depois da disponibilização de locais para o uso de droga e abrigos, e eram voltadas a informar os dependentes sobre essas alternativas. Assistentes sociais também foram engajados para o trabalho de informação.
"Os dependentes não foram simplesmente expulsos, o que os espalharia pela cidade, criando outros pontos de uso de drogas", destaca o sociólogo Martin Schmid, da Universidade de Ciências Aplicadas de Koblenz.
Exemplo para outros países?
Apesar de o problema da concentração de usuários em espaços públicos na Alemanha na década de 1980 estar relacionado à heroína, cuja possibilidade de terapia é diferente de outras drogas, inclusive do crack, especialistas afirmam que a percepção do vício com uma doença é um aspecto da política alemã que pode servir de exemplo para outros países.
"Ver o dependente como doente ajuda bastante a solucionar o problema das drogas, pois possibilita o desenvolvimento de políticas públicas adequadas para o apoio ao usuário. Simplesmente prendê-los ou interná-los à força não contribui para resolver essa situação", afirma Peter Raiser, do Escritório Central Alemão para Questões sobre Vício (DHS).
Schmid acrescenta que a abordagem da inclusão e da descriminalização do dependente pode ser a base, assim como foi na Alemanha, para países desenvolverem suas políticas de drogas de acordo com suas especificidades.

Fonte http://g1.globo.com/mundo/noticia/como-a-alemanha-acabou-com-a-sua-cracolandia.ghtml

Qual é o segredo da Austrália para crescer por mais de 25 anos sem recessão

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Porto de SydneyDireito de imagemAFP
Image captionSydney, a maior cidade australiana, reflete a prosperidade do país.
É preciso voltar muito no tempo para encontrar uma fase de crise na economia australiana.
Em 1990, a seleção argentina de futebol, liderada por Diego Maradona, jogava em Roma a final da Copa do Mundo contra a Alemanha. Havia poucos telefones celulares em operação e a maioria era do tamanho de um tijolo de construção. E a União Soviética estava em seu processo final de desintegração.
Desde 1991, e por quase 26 anos consecutivos, a economia australiana vem crescendo consistentemente.
Números divulgados pelo governo australiano nesta quarta-feira mostraram que a economia seguiu crescendo no último trimestre.
Com isso, o país conseguiu manter crescimento por 25 anos e nove meses, alcançando o recorde que pertenceu à Holanda no período do final do século 20 e início do século 21.
No ano passado, o crescimento do Produto Interno Bruto australiano foi de 2,4%. A expectativa do Banco Central australiano é manter o ritmo de crescimento em 2017.
No entanto, o crescimento do último trimestre foi de 0,3% - uma retração em relação ao trimestre anterior, que registrou crescimento de 1,1%.

Economia diversificada

Malcolm TurnbullDireito de imagemREUTERS
Image captionO primeiro ministro Malcom Turnbull encabeça uma economia que vem crescendo desde 1991
O bom desempenho experimentado pela economia australiana tem ainda mais mérito devido ao colapso dos preços internacionais das matérias-primas - uma tendência ameaçadora para uma nação voltada para a mineração.
A explicação pode ser encontrada, parcialmente, na boa sorte, segundo a correspondente de economia asiática da BBC, Karishma Vaswani.
"Houve perda de postos de trabalho no setor de mineração com o fechamento de algumas minas. Mas não esqueçamos que a Austrália é uma economia altamente diversificada", afirmou.
"Turismo, finanças, tecnologia e educação são os componentes principais da economia da Austrália que se beneficiou de uma moeda mais fraca", segundo a correspondente.
Também ocorreram lucros no setor agrícola e a mesma indústria de mineração obteve um alívio com a recente desvalorização do dólar australiano, o que fez os produtos do país ficarem mais baratos no exterior.
E os avanços tecnológicos a fizeram mais competitiva.

Alto padrão de vida

Mas, independentemente do desenvolvimento recente, o fato é que a Austrália está há mais de uma geração sem conhecer uma verdadeira crise econômica.
Mineradora australianaDireito de imagemAFP
Image captionApesar da queda nos preços das matérias primas, a economia se sustenta.
O país conta com abundantes recursos naturais e seu território tem dimensões continentais.
Conta com recursos minerais, mas também se beneficiou com correntes migratórias que levaram profissionais e empresários de todo o mundo a viver no país.
A Austrália atrai novos habitantes, em parte com a promessa de uma boa qualidade de vida em meio a praias, natureza e um clima agradável - além de cidades cosmopolitas como Sydney e Melbourne.
O desemprego se mantém num nível baixo, em torno de 5%.
E há muitos australianos que nunca experimentaram uma crise econômica.
Mas analistas advertem que com uma demanda externa muitas vezes inconstante, um elevado nível de endividamento de seus habitantes e outros fatores que diminuem o consumo, não se pode descartar uma desaceleração do crescimento.
* Este texto foi originalmente publicado em 11 de setembro de 2016 e atualizado em 7 de junho de 2017.
Fonte http://www.bbc.com/portuguese/internacional-37280598

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Como está a Máfia 25 anos após o atentado que matou juiz da 'Lava Jato' italiana

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Giovanni Falcone e outrosDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionO juiz Giovanni Falcone (centro) morreu em 23 de maio de 1992 num atentado da máfia Cosa Nostra
Quinhentos quilos de explosivos ocultos sob o asfalto explodem três carros blindados no quilômetro 4,7 da rodovia que liga o aeroporto à cidade siciliana de Palermo, na Itália.
São 17 horas, 56 minutos e 48 segundos do dia 23 de maio de 1992. O resultado: cinco mortos, incluindo o juiz Giovanni Falcone, alvo do ataque.
Dois meses depois, no dia 19 de julho, às 16h58, um carro-bomba põe fim à vida de seu colega Paolo Borsellino e de mais cinco pessoas na Via D'Amelio, na mesma Palermo.
Desde então, os nomes de Falcone e Borsellino tornam-se um símbolo trágico da luta contra a máfia na Sicília.
Lugar do atentadoDireito de imagemEPA
Image captionCenário de destruição após atentado que matou o juiz Falcone
Seus funerais levaram milhares de sicilianos às ruas de Palermo numa mobilização de repúdio ao crime organizado na ilha italiana.
"Não os mataram, suas ideias caminham sob nossas pernas". A frase se que lia nos cartazes de sacadas da capital siciliana naqueles dias se tornou um lema.

Mudança radical

Ativistas em PalermoDireito de imagemGETTY/MARCELLO PATERNOSTRO
Image caption"E agora matem todos nós", diz bandeira que levam ativistas antimáfia em protesto de 2007, em Palermo
As mortes de Falcone e Borsellino marcaram o momento auge na estratégia de ataques empreendida pela Cosa Nostra, a máfia siciliana do final dos anos 1980 e a princípios dos 1990 que deixou dezenas de mortos.
Também representaram uma ruptura na percepção social da máfia. O professor Rocco Sciarrone, sociólogo especialista no fenômeno mafioso, se refere a aqueles ataques como um "trauma cultural".
"Foi uma mudança radical. Pela primeira vez na história da Itália, a Máfia se converteu num mal público em nível geral, em um inimigo que tem que ser combatido", disse à BBC Mundo o professor de Sociologia da Universidade de Turim.
"Antes disso, a Máfia ou não era combatida ou era combatida apenas por alguns setores da sociedade", acrescenta.
No entanto, esta transformação já tinha começado alguns anos antes graças ao trabalho de combate à Máfia de Facolne e Borsellino, entre outros.
O episódio mais notável foi chamado de "Maxiprocesso de Palermo", que ocorreu entre 1986 e 1987 e teve um saldo de 360 condenações e mais de 2.200 anos de prisão acumulados em penas aos criminosos.
Foi um dos golpes mais duros contra a Cosa Nostra até aquela data.

O enfraquecimento

MonumentoDireito de imagemAFP
Image captionEm 2012, aos 20 anos do atentado, um monumento foi erguido em memódia do juiz Giovanni Falcone em Palermo
As mortes de Falcone e Borsellino, quatro anos depois, foram vistas como uma vingança e uma demonstração de força com a qual a Cosa Nostra pretendia amedrontar os poderes do Estado italiano.
Passados 25 anos, surgem perguntas inevitáveis: a Cosa Nostra alcançou seu objetivo final? Qual influência e poder ela tem hoje na Sicília?
Especialistas consultados pela BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, concordam ao descrever a Máfia siciliana como uma organização enfraquecida que perdeu grande parte de seu controle social na ilha.
Para Salvatore Lupo, um dos estudiosos do tema, os atentados contra Falcone e Borsellino tiveram um efeito paradoxal a longo prazo que, com os anos, acabou por implodir a própria organização criminosa.
"O auge terrorista da Máfia entre 1991 e 1993 levou, posteriormente, ao desastre (para a organização). Muitos líderes mafiosos terminaram na prisão. O grande capoSalvatore Riina foi preso; anos depois, seu sócio Provenzano também foi detido, e contatos com os Estados Unidos praticamente foram interrompidos", disse à BBC Mundo.
"O enfraquecimento da Máfia ocorreu pelos erros dos líderes mafiosos, sua arrogância e o fato de ter enfrentado diretamente a repressão estatal", afirma o professor de História da Universidade de Palermo.
A pressão policial, a criação de novas leis antimáfia (como a proteção de delatores e o confisco de bens mafiosos) foram ferramentas cruciais na mudança.
No Brasil, o juiz federal Sérgio Moro já comentou se inspirar em Giovanni Falcone, que também se baseou nas confissões dos chamados "arrependidos", como ocorre nas delações premiadas.
E, assim como na Lava Jato, a operação italiana Mãos Limpas revelou nos anos 1990 casos de corrupção envolvendo políticos, empresários e mafiosos.

Em números

Busca por Bernardo ProvenzanoDireito de imagemGETTY/FABRIZIO VILLA
Image captionBernardo Provenzano, um dos chefes da Cosa Nostra, doi detido em 2006, após passar 42 anos como fugitivo
Os números são reveladores. Em 1991 e 1992, a taxa de homicídios na Sicília era de 9,7 e 8,3 a cada 100 mil habitantes, muito acima da média italiana. Desde então, a queda foi constante e, em 2016, ficou em 0,7, num nível parecido ao resto das regiões italianas.
Palermo, eleita no início do ano como capital cultural italiana de 2018, é hoje uma cidade que tenta se afastar da imagem ruim associada à Máfia.
Em paralelo, no mesmo período foram detidas mais de 2 mil pessoas pela sua relação com a Cosa Nostra e foram confiscados bens no valor de mais de US$ 4 bilhões (R$ 12 bilhões) desde 1992.
A pressão policial aumentou de forma considerável após a campanha de atentados dos anos 1990 e provocou a queda de líderes da organização, que perdeu alguns de seus negócios mais rentáveis.

A atualidade

carroDireito de imagemGETTY/ MARCELLO PATERNOSTRO
Image captionRestos do carro onde morreu o juiz Falcone
"A Máfia siciliana deixou de ser um ator significativo no mercado da droga. Quando Falcone investigava-a, a Cosa Nostra tinha um papel importantíssimo no tráfico. Mantinha conexões com provedores turcos, teve presença em Nova York quando se discutia o fornecimento de heroína no mercado americano na costa leste. Tudo isso não existe mais", explica Federico Varese, professor de criminologia da Universidade de Oxford e especialista em máfias internacionais.
"Agora, a Máfia siciliana compra drogas para revendê-las a nível local, mas não é um ator internacional. Esse papel foi assumido pela Ndrangheta, a máfia da Calábria", afirma à BBC Mundo o autor do livro Mafia Life: Love, Death and Money at the Heart of Organised Crime ("Vida da Máfia: Amor, Morte e Dinheiro no Coração do Crime Organizado", em tradução livre).
Diferentemente da Cosa Nostra, a Ndrangheta calabresa nunca realizou uma ofensiva de atentados contra o Estado italiano. Manteve a discrição própria das organizações que se dedicam aos negócios ilícitos. Hoje, afirmam especialistas, é a máfia italiana mais rica, seguida da Camorra napolitana.
Na Sicília, a contínua pressão policial tornou difícil a reorganização da Cosa Nostra. "Ainda controlam parte do território da Sicília, mas com certa dificuldade. Eles têm dificuldades na hora de arrecadar dinheiro. E muitos de seus membros não ganham tanto dinheiro como costumavam. Estão com dificuldades financeiras", afirma Varese.
"O dinheiro que conseguem vêm através de atividades tradicionais de extorsão em troca de 'proteção'. Mas não tanto como no passado", acrescenta.

Extorsões

Protesto contra a máfiaDireito de imagemGETTY/MARCELLO PATERNOSTRO
Image captionO "pizzo", ou extorsão mafiosa, continua sendo cobrado na Sicília
O trabalho da sociedade civil foi determinante. Associações como Addio pizzo (literalmente, "Adeus à extorsão mafiosa"), nascida em 2004 e que agrupa mais de mil comerciantes e empresários que se recusam a pagar à Cosa Nostra, tornaram visível o repúdio ao grupo mafioso. No entanto, o pagamento do "pizzo" segue amplamente praticado na Sicília.
"Como confirma a maior parte das pesquisas sobre o fenômeno extorsivo, os empresários que aceitam (o pagamento) são ainda a grande maioria. Mas é difícil saber quantos pagam (propina)", explica um relatório sobre a máfia publicado pela Federação de Associações contra a Fraude da Itália.
Para Salvatore Lupo, a atividade mafiosa "por excelência é a da extorsão", por permitir controlar atividades econômicas sobre um território limitado. "A (indústria de) construção e distribuição, os supermercados, o comércio... são os setores nos quais a máfia opera de forma mais simples".
À manutenção das atividades mafiosas tradicionais soma-se mais discrição na forma de atuar hoje. Os grandes atentados e assassinatos em plena luz do dia são menos frequentes.
"A Máfia foi abatida e enfraquecida, e isso é muito importante destacar. Mas ela tenta se reorganizar, na minha opinião, e uma das estratégias mais importantes é a crescente presença da Máfia na economia legal. É o que na Itália chamamos de zona cinza. Aqui o problema é a introdução de mafiosos com relações de cumplicidade e de interesses cruzados com expoentes da economia legal, com empresários", afirma Sciarrone.
ArmasDireito de imagemGETTY/MARCELLO PATERNOSTRO
Image captionEm 2010, a polícia italiana confiscou armas usadas pela Cosa Nostra
No entanto, os limites entre a corrupção política e econômica e as atividades da Máfia propriamente dita nem sempre são claros.
"São grupos de negócios que têm recursos acumulados, inclusive do passado, e que continuam ativos em negócios que poderíamos chamar de limpos. Mas com métodos corruptos", sugere Lupo.
O especialista define a Máfia como uma "patologia da democracia" e insiste que os problemas e as carências democráticas que propiciaram o surgimento do crime organizado perduram na Sicília e no resto da Itália.
Por isso, apesar do otimismo diante do enfraquecimento da Cosa Nostra, os especialistas concordam que sua ruína não foi completa. "Foi derrotada numa batalha importantíssima. A guerra, no entanto, continua", conclui Lupo.
Fonte http://www.bbc.com/portuguese/internacional-40162317

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Brasil supera apenas Venezuela e Mongólia em ranking de competitividade

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Fábrica em BrasíliaDireito de imagemAGÊNCIA BRASIL
Image captionRanking de competitividade avalia eficiência empresarial e infraestrutura
O Brasil está próximo da lanterna da competitividade global, aponta um relatório divulgado nesta quarta-feira pelo instituto de pós-educação suíço IMD em parceria com a Fundação Dom Cabral.
Segundo o levantamento anual, apenas Venezuela e Mongólia estão em situação pior do que o Brasil. O país está na 61ª posição dentre as 63 economias avaliadas. De acordo com o diretor do estudo, o professor Arturo Bris, a má performance se deve à crise política no país.
No topo do ranking estão Hong Kong e Suíça, já haviam garantido o primeiro e segundo lugar na edição passada, seguidos por Cingapura e Estados Unidos, respectivamente, que trocaram de posição em relação à análise anterior.
Em 2016 o Brasil figurava na 57ª posição, mas caiu quatro pontos porque seus indicadores políticos e econômicos pioraram.
O ranking, que é publicado desde 1989, avalia o perfil dos países com base em quatro pilares: performance econômica, eficiência de governo, eficiência empresarial e infraestrutura.
Por meio de uma estimativa baseada em estatísticas compiladas sobre essas categorias, um país é comparado com o outro. Os dados utilizados para a edição atual são referentes ao período de janeiro a abril deste ano.
Na performance econômica, o Brasil recuou de 55 para 59, na eficiência do governo piorou de 61 para 62, na eficiência empresarial foi de 51 para 49 e na infraestrutura, caiu de 46 para 51.
Presidente Michel TemerDireito de imagemREUTERS
Image captionDiretor do estudo diz que solucionar corrupção deve preceder reformas propostas por Temer
A intenção do estudo é servir de referência para a criação de políticas públicas que gerem prosperidade para os indivíduos do país. No caso do Brasil, o país está falhando porque a crise de desgoverno não estão levando em consideração o interesse da sociedade, explica Bris.
"O Brasil é o caso clássico em que o setor público é um obstáculo à competitividade do país", avaliou Bris em entrevista à BBC Brasil.

Corrupção

Apesar de defender a necessidade de reformas no país, o professor avalia que não é sustentável nem eficiente tentar se levar adiante a pauta sem resolver a questão da corrupção primeiramente.
"A percepção do mercado (sobre o Brasil) é muito negativa, o país está entre os dez piores para se fazer negócios. O setor privado não acredita no governo. Eles não podem tomar a tarefa de investir e criar empregos para deixar o país mais competitivo. Isso não vai funcionar", pondera.
O estudo avalia que os objetivos brasileiros devem ser: acelerar a retomada econômica, modernizar e facilitar as leis, aprovar reformas-chave e reconquistar a confiança internacional. Para isso, é necessário desenvolver e implementar uma estratégia de competitividade digital, além de aumentar a eficiência e qualidade do sistema educacional.
"Competitividade é sobre criar empregos, estimular a prosperidade de uma nação", resume Bris.
Fábrica em BrasíliaDireito de imagemAGÊNCIA BRASIL
Image captionBrasil está entre os dez piores para fazer negócios, diz diretor de estudo
De acordo com a perspectiva do estudo da IMD, a maior vulnerabilidade do Brasil é a falta de visão de longo prazo, como políticas de melhora da qualidade da educação pública e de inserção na economia digital. Esses aspectos do investimento público são avaliados sob o tema infraestrutura e recuaram também. Educação caiu de 51 para 55 e infraestrutura científica retrocedeu de 36 para 41.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados na quarta-feira apontam que 13, 6% da população economicamente ativa está ociosa. Há uma piora em relação ao trimestre anterior - mais de 1,1 milhão de brasileiros perderam o emprego nos últimos três meses.
O indicador doméstico reforça a avaliação da IMD de que a situação está se deteriorando. O total de brasileiros desempregados já chega a 14 milhões. O número de pessoas sem trabalho é pouco menos que duas vezes a população da Suíça (que tem cerca de 8,3 milhões de habitantes).
"Primeiramente há que se combater a corrupção e se começar pelas escolas. O país precisa retomar a reforma do sistema educacional. Isso não é para o curto prazo, isso é para o longo. Essa é definitivamente uma das principais vulnerabilidades do país", afirma o professor.
"O investimento em educação primária tem sido muito ineficiente, sem conquistas. É necessária uma reforma maciça."
O instituto também lançou um ranking que mede a competitividade digital dos países. Nesse novo índice, o Brasil foi avaliado na 55ª posição, caindo um ponto em relação a 2016.
Joesley BatistaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionJBS, dos irmãos Batista, foi beneficiada por política de "campeões nacionais"

Políticas de campeões nacionais

A política de subsidiar companhias brasileiras por meio de empréstimos do BNDES, banco estatal de fomento, foi um dos marcos dos anos do PT no poder.
A chamada promoção de "campeões nacionais" favoreceu iniciativas como as empresas do grupo X, de Eike Batista, e a JBS, de proteína animal. Ambos os grupos estão envolvidos agora nas investigações da operação Lava Jato.
Bris acredita que esse tipo de estratégia pode ter resultados adversos, tudo dependendo de como ela é gerida, pois o objetivo final para ganho de competitividade precisa ser a criação de empregos.
"Veja o caso da Espanha, meu país, por exemplo. Lá os campeões nacionais são provedores de serviços que operam globalmente. Bancos como o Santander, ou empresas de construção, ou petroleiras como a Repsol. Ter gerado esses campeões nacionais não ajudou a reduzir o desemprego na Espanha, porque essas são empresas que investem e crescem muito no exterior, mas não empregam tantos espanhóis", avalia.
"Por outro lado, veja a Suíça. Ela promove campeões nacionais como a Nestlé, Novartis ou ABB. Essas empresas são manufatureiras, produzem muito no país e geram uma grande quantidade de empregos. Isso ocorre não apenas porque elas empregam diretamente, mas também porque elas possuem empresas satélites que proveem serviços para elas", pondera.
"Se o governo do Brasil vai criar empresas que exportam muito e fazem apenas algumas poucas pessoas ficarem ricas, então a política de campeões nacionais não vai funcionar."
Fonte http://www.bbc.com/portuguese/internacional-40112203