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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Cientistas desvendam por que leite materno tem moléculas de açúcar que bebês não digerem

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Mãe amamenta recém-nascidoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionO leite materno contém tudo o que um bebê necessita nutricionalmente
O ser humano nasce com 3,5 kg e 45 cm de comprimento, em média. A partir daí, nas primeiras semanas de vida, é quando crescemos mais rápido: quase um centímetro por semana. E o único alimento que ingerimos para sustentar esse impressionante ritmo é o leite materno, que contém tudo que é necessário para o desenvolvimento de um bebê.
Para produzi-lo, o corpo da mãe precisa usar componentes de si próprio. Por exemplo, derreter a gordura que armazena, primeiramente dos quadris e das nádegas. Por isso, pode parecer estranho que um dos principais ingredientes do leite materno não possa ser digerido por humanos.
"O leite materno é tudo o que o bebê necessita nutricionalmente e muito mais", destaca Bruce German, do Departamento de Ciência e Tecnologia Alimentícia da Universidade da Califórnia em Davis, nos Estados Unidos. "É repleto de água, proteínas, gordura, açúcar... Mas o surpreendente é que tenha uma enorme quantidade de oligossacarídeos complexos, que são totalmente indigestos para bebês."
Os cientistas descobriram há mais de meio século que essas moléculas complexas de açúcar não são absorvidas pelo intestino e não têm nenhum benefício nutritivo, mas não sabiam explicar sua presença no leite materno. German e sua equipe se dedicaram a resolver esse enigma e a descobrir por que as mães produzem grandes quantidades dessas moléculas.
"Nossa hipótese era que, se essas moléculas não alimentavam o bebê, deviam alimentar outra coisa: bactérias", diz German.

Proteção

Bebê crescendoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionNas primeiras semanas de vida, um bebê cresce quase um centímetro por semana
Amostras de oligossacaerídeos foram entregues ao renomado microbiólogo David Mills. "Ele testou bactérias até encontrar uma que crescia com essas moléculas", explica German.
bifidobacterium infantis é a única que pode se alimentar dos oligossacarídeos do leite humano. Assim, deduziu-se que as moléculas indigestas estavam presentes nele para que essas bactérias pudessem crescer e florescer.
Um bebê vive em um ambiente estéril e protegido até o nascimento, quando começa a adquirir bactérias do seu entorno. O intestino delgado é particularmente suscetível a bactérias infecciosas patogênicas.
Assim, como essa bactéria floresce nos oligossacarídeos, o intestino delgado se enche de bifidobacterium infantis, cobre o intestino do bebê e impede que qualquer patógeno cresça. Ou seja, as mães literalmente recrutam outra forma de vida para cuidar de seus bebês após o parto.
Composição do leite maternoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionA presença de oligossacarídeos complexos no leite materno intrigava cientistas

Prevenção

Na unidade neonatal de Sacramento, na Califórnia, os médicos estão testando um novo tratamento para ajudar bebês prematuros.
Um dos maiores desafios enfrentados por esses recém-nascidos é conseguir que as bactérias adequadas colonizem seus intestinos. Sem isso, correm o risco de desenvolver uma grave infecção intestinal, a enterocolite necrosante. Caso o tecido intestinal esteja infectado, podem surgir orifícios na parede do órgão, o que chega a ser fatal.
Por isso, os médicos começaram a alimentá-los com uma mistura de leite materno e bifidobacterium infantis. E mediram depois um aumento de bactérias nas amostras de fezes dos bebês. As evidências acumuladas até agora mostram que a bactéria pode prevenir a enterocolite necrosante.
Bebê prematuroDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionPesquisa aponta que a bactéria Bifidobacterium infantis previne infecções
O trabalho de German e sua equipe estão ampliando nossa compreensão de como bactérias podem ser benéficas e ajudar nosso organismo.
Há uma comunidade diversa de micróbios que vivem em cada um de nós: é o nosso microbioma. À medida que crescemos, ele cresce com a gente: a comida que ingerimos, os lugares que visitamos, as pessoas com quem interagimos, cada nova experiência modifica esse bioma. É algo tão individual quanto nossas digitais.
Temos milhares de espécies de bactérias vivendo em nossa pele, por exemplo. Em cada centímetro quadrado, pode haver mais de 1 milhão de bactérias ou mais. Um estudo identificou mais de 1 mil espécies que até então eram desconhecidas simplesmente a partir de amostras do umbigo.
Lupa mostra bactérias no intestinoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionComeçamos a desenvolver um bioma de bactérias desde o nascimento
Esses bilhões de bactérias com que convivemos não são parasitas. Há pesquisas que mostram que um desequilíbrio nas bactérias intestinais pode ter um enorme impacto no funcionamento dos nossos corpos.
A obesidade, a pressão arterial e doenças cardíacas já foram vinculadas a microbiomas deficientes. É possível ainda que afetem nosso estado de ânimo, causando depressão.
Por isso, é essencial que tenham um bioma de bactérias saudável - desde o berço.

Fonte http://www.bbc.com/portuguese/geral-41639536

sábado, 14 de outubro de 2017

De office boy a CEO: A trajetória de brasileiros até o topo de multinacionais e o que mudaram ao chegar lá

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Ricardo Leptich
Image captionDiretor executivo da Osram, uma das maiores empresas de iluminação do mundo, começou carreira como office boy | Foto: Divulgação
Lavar o carro, passear com o cachorro do chefe e protocolar documentos. Essas eram algumas das funções do homem que hoje ocupa o cargo mais alto no país da Osram - uma das maiores fabricantes de lâmpadas do mundo - quando entrou na empresa, em 1995.
Ricardo Leptich, de 39 anos, foi contratado como office boy. Mas depois de oito promoções em 21 anos, chegou à cadeira de CEO (diretor-executivo) em 2016. Ele conta à BBC Brasil que sua própria trajetória - incomum no país - o fez reconhecer que a maior parte das empresas exige demais dos funcionários, mas oferece poucos benefícios em contrapartida.
Se há duas décadas poderia parecer pretensão de Leptich imaginar que hoje estaria no topo, o mesmo valeria para o atual CEO do Banco do Brasil Américas, Antonio Cássio Segura. Ele nasceu em uma família de lavradores, começou a trabalhar aos nove anos como entregador de jornal e, 24 anos depois de entrar na companhia, alcançou o posto mais alto da subsidiária do banco brasileiro nos Estados Unidos.
Ambas são histórias raras no Brasil - país de pouca mobilidade social e com um mercado de trabalho em que poucos profissionais conseguem se manter por mais de quatro ou cinco anos em uma mesma empresa, de acordo com o consultor de carreiras Rafael Souto.
"A grande oferta de emprego leva o funcionário a ter mais opções. Mas ficar pouco tempo na empresa é ruim para o profissional porque ele pode nunca se consolidar em nenhum lugar", diz Souto à BBC Brasil.
De acordo com o consultor, as trajetórias de Leptich e Segura contêm ensinamentos que podem ser valiosos não apenas para os subordinados deles, mas para funcionários e gestores Brasil afora.
"O primeiro é ter uma visão de futuro em busca de ascensão profissional. O segundo ponto é permanecer um bom tempo na empresa para construir uma trajetória consistente para ganhar confiança da empresa e do mercado", recomenda.
"Também é necessário ter habilidade política e de networking para fazer boas leituras de quem são os influenciadores na empresa e aprender a navegar e como costurar com essas pessoas. É o marketing pessoal, que é diferente de ser 'puxa-saco'."

Meritocracia: um discurso vazio?

Para o CEO da Osram, que nasceu em uma família de classe média, o discurso de meritocracia - que prega que o esforço pessoal basta para o sucesso profissional e é mantra de muitos executivos - é vazio se as empresas não oferecerem políticas e condições que incentivem o funcionário a evoluir. Apenas a cobrança, de acordo com seu raciocínio, levará o empregado a buscar outro trabalho no médio prazo.
"As companhias devem ofertar ferramentas para que o funcionário cresça e tenha vontade de continuar nelas. O escritório do Mercado Livre em Osasco (Grande São Paulo), por exemplo, tem salão de beleza e academia. Isso é investir no funcionário para que ele se sinta feliz e faça carreira na empresa, e não a use apenas como trampolim", diz Leptich.
Seguindo essa linha de pensamento, o executivo criou um ambiente que chama de "sala de descompressão". Ali há TV, sofá e videogame à disposição de seus funcionários. O executivo ainda diz ter se aproximado deles, apostando em bolões e até participando de um grupo de WhatsApp da equipe.
Ricardo Leptich
Image captionPara CEO da Osram, empresas precisam oferecer mais benefícios ao invés de apenas cobrar dos funcionários | Foto: Divulgação
O comportamento destoaria do estilo dos três presidentes que o antecederam. Segundo ele, os três executivos mantinham uma relação de afastamento com os funcionários, com "nariz empinado, sem cumprimentar" para demonstrar que ocupavam um posto mais alto.
"Eu acho que o fato de vir de baixo me dá uma base completamente diferente. Eu conheço todo mundo. É uma relação de amizade e de respeito mútuo", diz Leptich.
Para facilitar o relacionamento com os funcionários, ele agora mantém a porta de sua sala aberta e afirma estar sempre à disposição para conversar. "Antes, eu precisava marcar horário para conversar com meus diretores. Achava um absurdo."
Como manter seus funcionários por mais tempo na empresa por mais tempo é o principal desejo do CEO, sua empresa mantém um formato de previdência privada que premia os subordinados mais longevos: quem completa dez anos de Osram ganha em dobro o valor que depositar. Quem tem mais de 20 anos de casa, recebe 200% a mais e quem completa 25 anos, 250% extra e uma festa para cem convidados em um bufê.

Sem privilégios entre os cargos

Para o CEO do Banco do Brasil Américas, privilégios dentro da companhia não são saudáveis. Segura afirma tentar criar uma relação de mais igualdade entre seus funcionários. A história familiar o ajudou a ter essa visão: a irmã de Segura é diarista, o irmão, motorista de caminhão.
"Essas são as pessoas com quem eu convivo e esse é o meu mundo. Essa é a minha origem e é por isso que eu conheço todas as faxineiras do banco pelo nome. E é fundamental que todos os funcionários se respeitem porque cada um tem sua história. E quem movimenta o banco é o escriturário, a secretária e os caixas", afirmou.
Assim que assumiu a cadeira mais importante da empresa, ele acabou com as salas de vice-presidente e implantou o mesmo plano de saúde para todos os funcionários - desde os faxineiros e seguranças até o dele próprio.
"Hoje, nenhum funcionário tem vaga melhor de estacionamento ou coisa do tipo. Ninguém deve ter privilégios, a não ser nossos clientes. Esses sim pagam nossos salários e merecem mais conforto", diz.
A política é parecida com algumas das estratégias adotadas por grandes companhias, como o Facebook, para melhorar o ambiente de trabalho. O criador da rede social, Mark Zuckerberg, costuma se sentar no escritório californiano em meio a todos os demais funcionários.

Metas curtas e alcançáveis

Leptich lembra que, além de cabelos compridos, tinha dois sonhos quando entrou na Osram aos 16 anos: fazer sucesso com sua banda de heavy metal e se tornar um executivo.
A cabeleira não agradava seu chefe alemão na época, que só passou a respeitá-lo anos depois, quando foi ao cabeleireiro e passou a tesoura. "Agora sim você parece um homem de marketing", afirmou o então CEO.
Leptich logo abandonou seu sonho de ser um astro do rock e diz que seu segredo foi estabelecer metas curtas e "forçar" promoções para atingir sua meta no mundo dos negócios. A estratégia foi apontar deficiências na empresa e sugerir soluções.
"Essa foi a minha estratégia e até hoje valorizo gente que traz problemas junto com soluções. Pode não ser a melhor, mas pelo menos isso mostra que ele está tentando refletir e trazer algo a mais do que simplesmente uma queixa. Mas também é muito importante levar resultados para ganhar credibilidade e implantar suas ações na empresa. Sempre tentei entregar muito mais do que me pediram", afirma.
O executivo revela que já vê alguns de seus funcionários em condições de assumir cargos importantes na empresa nos próximos anos.
Evolução de Ricardo Leptich na Osram
Image captionCEO da Osram fez gráfico para mostrar sua evolução na empresa ao longo dos anos; suas maiores promoções vieram acompanhadas de filhos | Foto: Arquivo pessoal
Sua dica para os mais jovens é traçar um plano para subir degraus aos poucos. Também é importante, no seu ponto de vista, observar qual a formação das pessoas que ocupam os cargos que almeja e o que elas fizeram para chegar lá.
O homem das metas a curto prazo, porém, precisou de tempo para pensar ao ser questionado pela reportagem da BBC Brasil sobre seu próximo objetivo profissional.
"Nos próximos dois ou três anos eu não vislumbro outra função, mas é obvio que ter oportunidades na companhia fora (do país) é um desejo. Mas por enquanto ainda tenho uma série de coisas a desenvolver por aqui."

Visão sistêmica da empresa

Caçula de quatro irmãos e filho de lavradores, Antonio Cássio Segura, de 49 anos, jamais pensou que fosse sair da fazenda onde morava com a família na infância no interior de São Paulo. Muito menos cruzar o oceano e morar nos Estados Unidos.
Ele tinha nove anos quando foi obrigado a deixar a vida na roça onde sua família trabalhava como lavradora de café após uma geada devastar a plantação. Seu pai passou a atuar como motorista levando boias-frias de caminhão para a zona rural, e seu irmão mais velho virou tratorista. Além de estudar, ainda criança o caçula passou a entregar jornal, leite e pão para ajudar na renda familiar.
Antonio Cássio Segura com os filhos e a esposa nos Estados Unidos
Image captionCom 14 anos, filha de CEO do Banco do Brasil Américas já precisou mudar de escola oito vezes | Foto: Arquivo pessoal
Com 14 anos, começou a trabalhar como frentista e dois anos depois virou office boy em um escritório de contabilidade, onde começou a traçar sua carreira. Aos 17, aceitou o convite de um amigo e foi para Rondônia trabalhar em uma agência do Itaú. Em 1988 entrou no Banco do Brasil, onde continua até hoje.
Na avaliação do consultor de carreiras Rafael Souto, quem faz carreira na mesma empresa tem mais facilidade em entender as dificuldades e olhar a corporação de uma forma mais prática do que quem foi contratado diretamente para cargos mais altos. "Ele passou por tudo, viu como funciona e colocou a mão na massa. É uma característica positiva e que o valoriza dentro da empresa", diz o especialista.
Na experiência de Leptich, nem sempre os mais jovens valorizam a experiência de passar por vários cargos e entender bem como a empresa funciona no todo.
"Eles fazem o serviço correto na área deles, mas não têm uma visão sistêmica e isso, muitas vezes, gera um retrabalho. É uma situação individualista de olhar o seu trabalho sem se preocupar como isso influencia as outras áreas. Ele pensa que está fazendo o melhor, por exemplo, ao fechar uma grande venda sem considerar o impacto dessas iniciativas na áreas de logística e de produção, o que pode ser desastroso."
O CEO da Osram afirma que o mundo ideal é ter funcionários com conhecimento técnico, mas que conheçam a fundo a empresa, como ele conseguiu após ficar anos no mesmo emprego. Por isso, a empresa adotou um programa para contratar adolescentes de 15 ou 16 anos, dar experiência e ajudar nos estudos para que eles se formem e cresçam internamente.

Paciência: as promoções podem demorar

O presidente do Banco do Brasil Américas afirma que hoje se considera uma pessoa realizada, mas que já se sentiu frustrado e até pensou em sair da empresa ao ficar quatro anos sem receber uma promoção.
"Eu era promovido a cada dois anos. Chegou uma hora que afunilou e eu fiquei revoltado porque não subia mais de cargo", conta.
Antonio Cássio Segura
Image captionCEO do Banco do Brasil Américas é filho de lavradores e foi promovido dezenas de vezes | Foto: Divulgação
Para Segura, chegar a um cargo tão alto é consequência de um trabalho constante.
"Sempre digo em meus discursos o conselho que o personagem do filme 'Carros' recebeu de um ex-corredor antes de uma competição importante: 'Ache a sua velocidade de conforto e a mantenha. Ela te fará vencer'. Esse é o meu lema. Não adianta ter afobação, o ideal é ter regularidade."

Fonte http://www.bbc.com/portuguese/brasil-41488672

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O que é a 'Teoria do Louco' que Trump pode estar usando com a Coreia do Norte - e quais são seus riscos

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Donald TrumpDireito de imagemREUTERS
Image captionDonald Trump colocou o mundo em alerta com suas ameaças declaradas contra a Coreia do Norte
Muitos acreditam que o presidente dos EUA, Donald Trump, usa a "Teoria do Louco" ("Madman Theory", em inglês) para lidar com a Coreia do Norte. Se isso for verdade, o fato de ter sido chamado de "mentalmente perturbado" pelo líder norte-coreano Kim Jong-um pode ter representado uma conquista para o líder americano.
A ideia da "Teoria do Louco" é se colocar como alguém imprevisível ou disposto a encarar um enfrentamento a qualquer custo na tentativa de dissuadir o inimigo. Se um dos lados acredita genuinamente que o outro é capaz dar início a um combate, pode ceder às demandas dele para evitar o pior, como, por exemplo, um ataque nuclear.
A "Teoria do Louco" prevê que o comportamento supostamente irracional seja deliberado, ou seja, o comportamento supostamente imprevisível - que passa a impressão de que uma loucura pode ser cometida a qualquer momento - não é verdadeiro, mas crível o suficiente para enganar o lado oposto. Assim, nunca se sabe ao certo se a pessoa está se passando por louca ou se realmente é um indivíduo instável.
As especulações de que Trump tenha seguido essa estratégia em sua política externa surgiram antes mesmo dele assumir a Presidência dos EUA em janeiro. Ainda durante a campanha, ele lançou mão da carta da imprevisibilidade ao se posicionar sobre temas internacionais.
"Temos que ser imprevisíveis", respondeu Trump no ano passado, quando o jornal The Washington Post lhe perguntou sobre o que pretendia fazer em relação à expansão chinesa. "Somos muito previsíveis, e o previsível é ruim."
Mas as suspeitas de que Trump aplica a Teoria do Louco na política externa aumentaram no mês passado, quando prometeu responder com "fogo e fúria" a ameaças Coreia do Norte.
Lançamento de míssil na CoreiaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionExercícios militaes e lançamentos de mísseis na Coreia do Norte intensificaram nos últimos meses e provocaram uma reação mais dura dos EUA
Os motivos para acreditar que o norte-americano é adepto da estratégia da imprevisibilidade ganharam ainda mais força esta semana quando Trump foi à Assembleia Geral das Nações Unidas e disse que os EUA estão preparados para "destruir totalmente" a Coreia do Norte.
No sábado, um dia após o segundo lançamento, pelo regime de Kim Jong-un, de um míssil intercontinental, a tensão escalou quando bombardeiros B-1B americanos, escoltados por jatos de combate, sobrevoaram a península coreana - no que o Pentágono classificou de "demonstração de força".
Mas será que Donald Trump realmente quer que Pyongyang o veja como louco? Qual o risco de enfrentar um regime tão fechado que alega ter armas nucleares?

Precedente

Richard Nixon
Image captionRichard Nixon (1969-1974) foi o primeiro presidente dos EUA a quem se atribui o uso da Teoria do Louco
A imagem do ex-presidente Richard Nixon (1969-1974) há anos é associada à Teoria do Louco. Ele foi o primeiro presidente dos EUA a quem se atribuiu o uso da estratégia, supostamente para intimidar a União Soviética e também a Coreia do Norte. A ideia era fazer com que os membros do bloco comunista pensassem que o então presidente americano era inconstante e irracional.
H.R. Haldeman, que foi chefe de gabinete de Nixon, escreveu que o ex-presidente lhe falou sobre a teoria quando disse querer que os vietnamitas do norte pensassem que ele poderia fazer "qualquer coisa" para por um fim à Guerra do Vietnã, sabendo que tinha nas mãos o "botão nuclear".
Trump tem salientado que também controla ferramenta similar. Fez isso no dia seguinte ao comentário em que prometeu "fogo e fúria", palavras que integrantes do governo norte-americano descreveram como espontâneas.
Enquanto o secretário de Estado, Rex Tillerson, tranquilizava aliados negando que houvesse uma ameaça iminente à Coreia do Norte, Trump usou sua conta no Twitter para afirmar que sua primeira ordem como presidente foi "renovar e modernizar" o arsenal nuclear dos EUA.
"Espero que nós nunca precisemos usar esse poder, mas nunca haverá um tempo em não sejamos a nação mais poderosa do mundo", postou em 9 de agosto.
Muro pintado com os dizeres Direito de imagemEPA
Image captionEm agoto, Kim Jong-un ameaçou atacar Guam, ilha do Pacífico considerada base militar chave para os EUA
Diversos analistas americanos comentam abertamente sobre a possibilidade de Trump estar seguindo a linha de Nixon para tentar amedrontar os norte-coreanos.
"Pode ser que você ache que a Teoria do Louco é a teoria certa aqui", disse David Brooks, colunista do jornal The New York Times no programa PBS Newshour. "Eu acho que pode ser muito eficaz, desde que você não esteja realmente louco."
Como se trata de uma estratégia que não é anunciada, sempre haverá dúvidas sobre o uso da "Teoria do Louco".
Pode ser que Trump realmente esteja sendo direto quando alerta para o risco de uma guerra devastadora com a Coreia do Norte se os EUA forem obrigados a, como disse na Assembleia da ONU, "se defender ou a defender seus aliados".

Lógica da rua

Joan Hoff, uma historiadora que publicou livros sobre Nixon e sobre a polícia exterior dos EUA, sustenta que não há certeza de que o então presidente realmente empregara a Teoria do Louco como sugerira Haldeman.
"Sempre se fala isso sobre Nixon, mas Nixon sabia muito sobre política externa para adotar um enfoque tão simplista", disse Hoff à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
Contudo, ela diz que a teoria "provavelmente se aplica a Trump, porque ele nada sabe sobre relações internacionais".
Diante da dúvida se a postura de Trump é intencional ou não, há o receio de que essa suposta "imprevisibilidade" do atual presidente possa ser perigosa.
Kim Jong-un em desfile militarDireito de imagemREUTERS
Image captionLouco ou calculista: líder da Coreia do Norte também dá sinais de que é imprevisível
"Pode haver algum mérito na Teoria do Louco desde que você esteja numa crise", disse David Petraeus, general da reserva dos EUA, em um debate na Universidade de Nova York há alguns dias.
"Você não quer que o outro lado pense que você pode ser irracional o suficiente para conduzir um primeiro ataque ou fazer algo impensável", advertiu.
Muitos também acreditam que o líder norte-coreano Kim Jong-un também segue a "Teoria do Louco" para se fazer respeitar em sua região e nos Estados Unidos.
No Twitter, o próprio Trump definiu Jong-un como "um louco que não se importa em morrer de fome ou matar seu povo".
No entanto, outros o veem de forma diferente.
Kim Jong-un vio personalmente un reciente ensayo con misilesDireito de imagemREUTERS
Image captionKim Jong-un examina personalmente algunos de los ensayos con misiles.
"Kim Jong-um não é um louco, é muito calculista", disse Howard Stoffer, especialista em segurança nacional que trabalhou por 25 anos no serviço diplomático dos EUA. "Lança comunicados que são bombásticos e beligerantes, mas ele não lançou mísseis contra os Estados Unidos ou a Coreia do Sul."
Na sua opinião, falar duro e ser imprevisível quando se tem um cargo com tantas responsabilidades vai contra os interesses globais.
"É uma lógica de rua, que funciona quando você é um garoto do bairro e há gangues. Isso não funciona na diplomacia internacional", disse Stoffer à BBC Mundo. "O mundo funciona se tiver estabilidade e todos são previsíveis."
Fonte http://www.bbc.com/portuguese/internacional-41397642